Fecha o farol, paro o carro em uma rua de duas pistas em São Paulo, esperando o verde. Outro carro “inventa” uma terceira fila com a clara de me cortar e ganhar alguns segundos na correria metropolitana. Seria uma cena comum para qualquer paulistano – inclusive de tantas outras cidades com trânsito intenso e gente mal-educada – se aquela enorme caminhonete de cabine dupla, com vidros escuros, blindada, recheada com quatro yuppies falando alto, costurando em prejuízo de motoristas mansos como eu, não representasse uma perfeita alegoria de tudo o que discordo na cadeia de valores que habita o imaginário de grande parte da população em épocas neoliberais, épocas às quais talvez futuramente sejam rotuladas como o apogeu da sociedade de consumo.
O carro grande, a arrogância, aquela sensação de que seu tempo é mais valioso que o dos demais, a prepotência de achar que com um veículo maior as leis de trânsito ficam menores, o mundo corporativo dos engravatados homens de preto, a blindagem do veículo acirrando as diferenças e segregações urbanas, tudo isso me veio à cabeça alguns instantes antes de abrir o farol, enquanto eu ponderava se deveria deixar aqueles fulanos furarem a fila ou se deveria sabotar seus planos arrancando forte e deixando-os encaixotados na pista inventada.
Deixei-os entrar. Não tanto por evitar conflito senão que porque este pequeno conflito do dia a dia é justamente insumo para pensar, não para agir. A ação é mais embaixo, é mais estratégica, é mais no sentido de alterar o futuro. O enfrentamento em micro-situações no dia a dia gera um enorme desgaste, consumindo forças que podem ser canalizadas para ações construtivas com maior amplitude: verdadeiras sementes do câmbio.
Ainda que se “ganhe” uma briguinha de trânsito como tal (se é que alguém ganha algo com um conflito destes), a conseqüência imediata é apenas geração de estresse de ambos os lados, tirando o foco do que cada um está realmente defendendo que é, no fundo, um estilo de vida, um conjunto de valores, diretrizes de convívio social, princípios éticos. Deixemos a animosidade e o mito do herói – aquele que resolve tudo aqui e agora com as mãos nuas – para Holywood e seus admiradores. O debate e a transformação se dão em outros palcos.












Hola
Soy de chile vivo al sur en la isla Chiloé, no hablo portugués, pero he comprendido completamente tu mensaje.
Qué bueno encontrar personas a las que les sucedan cosas parecidas a las mías.
Para que momentos así ocurran, se necesita estar atento al entorno, para poder diferenciar y no caer en la corriente de los demás.
Me sucede muchas veces que de situaciones simples y cotidianas que veo en la calle o a mi alrededor puedo ver el mundo, las personas y sus problemas, y darme cuenta de que las soluciones, a veces son más sencillas, si sólo nos detuviésemos a pensar un poco en cómo vamos a proceder o cuál será nuestro próximo paso, un segundo lo cambia todo a veces, pero vivimos tan rápido, tan himnotizados, e inerciales, que se nos pasa la vida y no alcanzamos a disfrutarla.
Saludos desde chiloé-Chile