Muito bom artigo em http://zonaderisco.blogspot.com
Jennifer Hall-Massey sabe que não deve tomar a água que sai das torneiras em sua casa, nas proximidades de Charleston, Estado americano da Virgínia Ocidental.
Na verdade, sua família inteira procura evitar qualquer contato com a água. Seu filho menor traz em seus braços, pernas e peito crostas de feridas dolorosas provocadas pela água do banho poluída com chumbo, níquel e outros metais pesados. Muitos dos dentes de seu irmão já foram recapeados para substituir o esmalte corroído pelo contato com a água.
Os vizinhos de Hall-Massey aplicam loções especiais ao corpo após o banho, para aliviar a sensação de queimadura na pele. Exames revelam que a água que sai de suas torneiras contém arsênico, bário, chumbo, manganês e outras substâncias químicas, em concentrações que, segundo reguladores federais, podem contribuir para provocar câncer e prejudicar os rins e o sistema nervoso.
"Como é possível que tenhamos internet e TV a cabo digital
em casa, mas não tenhamos acesso a água limpa?", disse Hall-Massey, que
é contadora. "Como é que isso pode acontecer hoje em dia?"
Quando
ela e 264 de seus vizinhos processaram nove empresas de carvão das
redondezas, acusando-as de jogar resíduos perigosos na água, seu
advogado não precisou ir longe para buscar provas. Conforme o exigido
pelas leis do Estado, algumas das empresas tinham divulgado em
relatórios que estavam injetando concentrações ilegais de substâncias
químicas no solo. São os mesmos poluentes que saem das torneiras dos
moradores da cidade.
Mas os organismos reguladores estaduais nunca multaram ou puniram as empresas por desobedecer às leis sobre a poluição.
Lei da Água Limpa,
O
fenômeno não é restrito à Virgínia Ocidental. Há quase quatro décadas,
o Congresso dos EUA aprovou a Lei da Água Limpa, que obriga os
poluidores a divulgar as toxinas que despejam nas vias hídricas e para
dar aos reguladores o poder de multar ou encarcerar os infratores.
Diferentes Estados americanos aprovaram seus próprios estatutos da
poluição. Nos últimos anos, porém, as violações da Lei da Água Limpa
vêm aumentando em todo o país.
Poluição e falta de fiscalização
Nos
últimos cinco anos, fábricas químicas, plantas manufatureiras e outros
locais de trabalho cometeram mais de meio milhão de infrações das leis
sobre a poluição das águas. E a grande maioria escapou impune.
Autoridades estaduais têm ignorado casos de despejo ilegal de
substâncias poluentes, e a Agência de Proteção Ambiental do país (EPA),
que pode processar poluidores nas situações em que os Estados se
omitem, em muitos casos tem se negado a intervir.
Como a maior parte
da poluição não tem odor ou sabor, muitas pessoas que consomem
substâncias químicas perigosas não têm consciência do fato, dizem
pesquisadores, mesmo depois de adoecerem.
Doença e água contaminada
Um
estudo publicado pelo periódico "Reviews of Environmental Contamination
and Toxicology" revelou que estimados 19,5 milhões de americanos por
ano adoecem por consumir água contaminada por parasitas, bactérias e
vírus. Essa cifra não abrange doenças provocadas por outras substâncias
químicas e toxinas.
Excesso de produção e contaminação do solo
Nos
Estados que são os maiores produtores de laticínios, como Wisconsin e
Califórnia, agricultores pulverizaram fezes animais liquefeitas sobre
campos. Os resíduos infiltraram poços, causando infecções graves. A
água de torneira encontrada em partes do chamado cinturão agrícola,
incluindo cidades de Illinois, Kansas, Missouri e Indiana, já
apresentou pesticidas em concentrações que alguns cientistas vinculam a
defeitos congênitos e problemas de fertilidade.
Alguns das
substâncias contaminadoras mais frequentemente detectadas já foram
vinculadas a câncer, defeitos congênitos e desordens neurológicas.
Falta de fiscalização e multas
No
entanto, menos de 3% das violações da Lei da Água Limpa resultaram até
agora na aplicação de multas ou outras punições. E em vários momentos a
EPA se negou a processar os poluidores ou obrigar os Estados a reforçar
o policiamento, ameaçando suspender o repasse de verbas federais ou
revogar poderes delegados a autoridades estaduais.
Doença de pele
Certa
noite, o filho de seis anos de Jennifer Hall-Massey, Clay, pediu para
brincar na banheira. Quando saiu dela, partes de seu corpo estavam
vermelhas e irritadas, doendo tanto que ele não conseguiu dormir.
Hall-Massey apresentou queixas às autoridades estaduais. Elas lhe
disseram que não sabiam por que sua água estava tão poluída, mas que
duvidavam que as empresas de carvão tivessem feito algo de errado. A
família pôs a casa à venda, mas, devido à água poluída, nenhum
comprador se interessou pelo imóvel.
Em dezembro, ela e seus
vizinhos abriram um processo no tribunal do condado, pedindo
indenização. O processo ainda não foi a julgamento. A maioria dos
moradores ainda usa água poluída para tomar banho e lavar a louça.
"O
trabalho mais importante dos pais é proteger os filhos", disse
Hall-Massey. "Mas onde estava o governo quando precisamos dele para nos
proteger contra essa sujeira?"
Fonte: Folha de São Paulo - 28 de setembro de 2009 e New York Times
Comentário em Zona de Risco (http://zonaderisco.blogspot.com):
O problema da água ou da produção, lembra o balanço
estequiométrico onde temos as quantidades dos reagentes (matérias
primas) que são necessários para produzir determinadas quantidades de
produto. Nesse balanço não existe equilíbrio perfeito, sempre há
excesso de matéria prima, desperdício. Esse excedente volta para
natureza em forma de resíduos, poluição, etc. A natureza apresenta um
ciclo de equilíbrio dinâmico e quando rompe essa cadeia dinâmica de
equilíbrio, predomina na natureza a contaminação.
É difícil
equacionar esse problema devido ao modo de vida da sociedade moderna,
consumismo desenfreado. Veja o exemplo do celular, no inicio era um
telefone móvel, atualmente, é um aparelho multimídia. Quanto de matéria
prima e energia é gasto para produzir esse aparelho, para durar apenas
um ano? E depois volta para natureza como lixo industrial.
Existe
uma correlação entre o crescimento do PIB, crescimento populacional,
aumento do consumismo e a necessidade de água. Mais alimentos, mais
produtos significam um aumento no consumo de água, para as diferentes
atividades agrícolas e industriais.
Não há como a natureza repor esse consumo excessivo de matéria prima e ao mesmo absorver esse desperdício. O ciclo de vida da natureza é lento e demorado.
Usar água significa que ela se torna indisponível, demora para retornar ao seu ciclo natural.
A agricultura é responsável por dois terços do uso e por quase 90% do consumo de água, o excedente da água volta para natureza contaminada por fertilizantes, agrotóxicos, etc..
A indústria usa um quarto e consome menos de 5% da água, o excedente da água volta para natureza contaminada por resíduos industriais.
O desperdício é representado por uso e/ou consumo excessivo e desregrado da água e a poluição é causada pelo desmatamento ciliar, pela falta de proteção nas nascentes, pelo mau manejo de solo, pelo uso inadequado de agrotóxicos e fertilizantes, pela falta de investimento no tratamento de efluentes, etc.













Impressionante e coincidências
Arnaldo, não sei o que é mais impressionante: a história que vc conta no artigo ou uma coincidência: eu morei seis meses exatamente nesta região, na vizinha Masontown, em Virgínia Ocidental, em 1990... Joguei futebol americano e lutei "wrestling" contra Charleston!
A sorte é que como bom paulistano, fui treinado a evitar a água de torneira na medida do possível.
É um horror viver entre o agrotóxico e a água engarrafada. O que é natural? O que é puro?... se o cara for realmente rigoroso tem que viver de ar.. e ainda assim escolher bem que ar!!