A diplomacia brasileira anunciou na tarde desta sexta-feira (30) que
recebeu "com satisfação" a notícia do acordo alcançado em Honduras
entre as comissões do presidente deposto Manuel Zelaya e o governante
golpista Roberto Micheletti.
Segundo a nota divulgada pelo Itamaraty, o entendimento entre as duas
partes "cria as condições para o restabelecimento da ordem democrática
em Honduras".
Nas negociações desta quinta-feira, foi superado o
último impasse no acordo, o ponto que diz respeito justamente ao futuro
de Zelaya. Enquanto o governo Micheletti pedia que a decisão sobre o
eventual retorno de Zelaya à presidência fosse responsabilidade da
Justiça, os negociadores do presidente deposto defendiam que essa
deveria ser tarefa do Congresso. Ontem, Micheletti cedeu e o acordo foi
fechado como pedia Zelaya.
"O Brasil expressa a expectativa de
que a normalidade institucional se restabeleça dentro do mais breve
prazo em Honduras, com a volta da titularidade do Poder Executivo ao
estado prévio ao golpe de estado de 28 de junho", continua a nota do
Ministério das Relações Exteriores, pedindo que Zelaya seja reconduzido
à presidência.
Honduras, país centro-americano com pouca
influência política e econômica do Brasil, virou um grande tema
nacional depois que Zelaya retornou a Tegucigalpa clandestinamente, em
setembro, para pressionar o governo golpista a reconduzi-lo ao cargo do
qual tinha sido expulso em junho.
Como pesavam contra Zelaya
várias ordens de prisão, o presidente deposto ocupou a embaixada
brasileira em Tegucigalpa, com autorização do Brasil, durante as
últimas quatro semanas. O prédio logo foi cercado por militares
hondurenhos e as atividades consulares tradicionais foram prejudicadas.
"Ao
congratular o povo hondurenho pelo desfecho pacífico da crise, o Brasil
confia em que o acordo ontem alcançado permita a plena reintegração de
Honduras ao sistema interamericano e internacional e a pronta
normalização da situação de sua Embaixada em Tegucigalpa", prossegue a
nota do Itamaraty.
Repercussão internacional
Um depois
de anunciado o acordo, Estados Unidos, União Europeia e a Organização
dos Estados Americanos (OEA) também elogiaram o entendimento em
Honduras.
A secretária de Estado norte-americana, Hillary
Clinton, comemorou o acordo. "Nós estávamos claramente do lado da
restauração da ordem constitucional, e isso inclui eleições", disse
Hillary durante visita ao Paquistão.
O secretário-geral da
Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza,
expressou "enorme satisfação" pelo acordo e destacou a
vontade de ambas as partes para retomar o diálogo.
"Se
for cumprido de boa fé, o acordo resolve a crise", disse Insulza. A OEA
agora prepara a missão que vai acompanhar a realização dos termos
acordados, assim como uma outra para acompanhar as votações do dia 29.
A
comissária europeia de relações Exteriores, Benita Ferrero-Waldner
demonstrou "grande satisfação" e desejou a aplicação do acordo "no
prazo mais breve possível".
Devido ao golpe, a União Europeia havia congelado as ajudas ao governo
hondurenho, bem como as negociações comerciais com o país.
A
França, sempre contrária ao golpe, disse que o acordo "abre caminho
para o restabelecimento da ordem constitucional e ao retorno do
presidente Zelaya a suas funções", de acordo com um comunicado do
Ministério de Relações Exteriores.
Antecedentes
Manuel
Zelaya foi enviado para fora do país à força por um grupo de militares
que invadiram sua casa na manhã de 28 de junho. No mesmo dia, uma falsa
carta de renúncia foi lida no Congresso e o então presidente da casa,
Roberto Micheletti, assumiu a Presidência.
Zelaya é acusado pela
Justiça de Honduras de ter violado as leis do país ao propor uma
reforma da Constituição, que prevê ela mesma a imutabilidade de parte
de seus artigos - em especial, o que diz respeito ao mandato único para
presidente.
Com essa acusação, um general foi encarregado pela
Justiça de deter o presidente. Contudo, a decisão de enviá-lo para fora
do país, segundo Micheletti, teria sido tomada no momento do golpe
pelos próprios militares.
Depois de uma temporada fora de
Honduras, na qual visitou diversos países em busca de apoio, Zelaya
retornou de modo inesperado a Tegucigalpa no dia 21 de setembro e
recebeu abrigo na embaixada do Brasil no país.
A situação criou
um impasse: Zelaya, se deixasse a embaixada nas atuais condições, seria
preso para responder pelos crimes dos quais é acusado; por sua parte,
Micheletti se recusava a admitir a possibilidade de restituir o
presidente deposto; e o Brasil, que não define Zelaya como "asilado
político", continua concedendo "abrigo" a quem o Itamaraty define como
"presidente legítimo do país".
Depois da chegada de Zelaya, a
Organização dos Estados Americanos renovou seus esforços para mediar um
diálogo entre as partes e superar esse impasse. A OEA conseguiu que o
governo recebesse a visita de uma delegação de chanceleres e instituiu
com sucesso uma mesa de negociação entre delegados das duas partes.
Essa
comissão, partindo dos pontos previstos no acordo de San José, manteve
uma série de encontros nos quais teve consenso em sete dos oito
principais itens, mas não sobre o futuro de Zelaya. Enquanto a comissão
de Micheletti defendia que a decisão final deveria caber à Justiça, o
grupo de Zelaya pedia para que a última palavra fosse do Congresso.
Acordo
O impasse durou até esta quinta-feira (29), quando foi
anunciado que Roberto Micheletti recuou e a comissão de negociação
decidiu que caberia ao Congresso a decisão de restituir ou não Zelaya à
presidência.
"Esse é um primeiro passo. Meu retorno é iminente, estou otimista", afirmou Zelaya.
Se
aprovado pelo Congresso, Zelaya poderia terminar seu mandato
presidencial, que acaba em janeiro. Não ficou claro o que aconteceria
com o restante do acordo se o Congresso votar contra a restituição de
Zelaya.
Micheletti, que se mostrava irredutível sobre o retorno
de Zelaya ao poder, amenizou sua posição após a mediação dos Estados
Unidos, na figura do subsecretário de Estado para América Latina,
Thomas Shannon, que liderou uma comissão em visita a Tegucigalpa essa
semana.
Shannon chamou os negociadores como "heróis da
democracia" e destacou a "liderança política" de Zelaya e Micheletti,
que, segundo ele, tornaram possível esse entendimento.
O acordo
estabelece ainda que ambos os lados reconheçam o resultado das eleições
presidenciais previstas para 29 de novembro. O controle do Exército
seria confiado ao Tribunal Superior Eleitoral.
Micheletti disse
que o acordo criaria uma comissão da verdade para investigar os eventos
dos últimos meses, e iria pedir aos governos estrangeiros que
revertessem medidas punitivas como a suspensão de ajuda e o
cancelamento de vistos de viagem a figuras proeminentes envolvidas no
golpe e no governo de facto.
http://noticias.uol.com.br/ultnot/internacional/2009/10/30/ult1859u1782.jhtm












Pelo jeito a delegação americana ...
Pelo jeito a delegação americana deu uma aula política para terminar com o impasse político em Honduras, para a escolinha de democracia bolivariana do professor Chávez. Essa escola tem eméritos professores de democracia, Correa, Evo Morales, Cristina Kirchner e o professor convidado de honra, Lula. Essa escolinha faz mais barulho do que estuda. César
Ironia no lugar errado
Oi Cesar,
Claramente se não fosse pela firmeza e constitucionalidade que o governo brasileiro (que você ironizou em seu comentário) lidou com a chegada de Zelaya ao país, não haveria sequer uma brecha para acordo, como ficou claro na forma brutal de agir do governo golpista.
Sugiro que todos evitem reproduzir o discurso hegemônico da mídia e procure ler fontes de informação variadas para não ficar preso a uma visão unilateral, sem crítica.